O sol pálido descamba por trás das coxilhas, as mulas tranqueiam com pernas
espichadas pelas sombras longas da tardinha.
Rolando no lombo das pedras, o rio cheio não da vai. Correm ligeiras as
águas para despencarem na bulha do cachoeirão.
Faz frio. Vindo dos pampas, o vento sul anuncia a geada. Os tropeiros chegaram com
a noite, costilha quente a mulada suada bafeja esponjando-se no gramado e,
longe da querência, orneia comprido, fazendo eco no abismo das canhadas
mais fundas agora, pelas sobras da noite.
Longe um coro de urús canta. É sinal de bom tempo – resmungava o tropeiro. Como um grito de dor o canto agourento do urutau corta a noite que começa: ai, ai, ai, ai...
E a noite fala suas vozes misteriosas, que se confundem com o baque rouco das águas na cachoeira, e se vão pelo infinito da escuridão.
É noite. A peonada mateia e cisma silenciosa, ao pé da fogueira.
Modinha assobiada quebra o silencio, lembrando um fandango dos tempos de mocidade.
Olhos fitos na labareda, o tropeiro pensa longe, queima a cachola em lembranças
que se misturam com a fumaça que sobe, sobe e se vai. Estrada comprida,
chão pela frente e, pensa, pensa:
- Fogo de chão é como a vida da gente,
Um dia ascende e vai queimando,
Vira brasa e, depois, no fim, cinzas.
Quanta fogueira já se queimou pela beira
Desse estradão da vida.
Quanto sonho, quanta esperança,
Quanto orgulho e quanta ilusão.
Pela porta do rancho entra um pedaço do céu, que, com o dia se vai,
mas a noite o traz de volta pra outro tropeiro ver.
Mundo grande!
Penso na minha viajem de tranco duro, de tanto rio cheio de encruzilhadas e perdidas.
Peço olhando as estrelas, ao Negrinho do Pastoreio que quando se apagar a minha fogueira, não sejam as cinzas levadas nos cascos das mulas, nem pelas enxurradas, mas, que as levam os ventos, e as extraviem como tropa xucra no ermo das coxilhas, até os horizontes,
e que continuem sempre viajando e viajando até chegarem, como bom tropeiro,
as alturas do céu como destino.
Noite escura. Rio cheio. Vento sul. Mate amargo e fogo de chão, brasas, cinzas e cismas de tropeiro, campeando pousada, nestes misteriosos caminhos da vida...