Tio Ladário, depois de ficar cego, estabeleceu-se como uma bodega perto do Buraco Fundo à uma légua e pico de Restinga Seca.
Ele atendia a todos os fregueses como se enxergasse, fazia troco com facilidade porque naquela época o padrão nometário brasileiro era o mil-réis e todas as moedas e cédulas tinham tamanho diferente, de acordo com o seu valor.
Em uma tarde, estando tio Ladário só com dois ou três de seus filhos em casa, atendeu a todos os fregueses que estavam na venda, tendo ficado apenas um deles, um sujeito que ele não conhecia, tomando um trago.
Em determinado momento, tio Ladário "viu" que o freguês estava tentando abrir a gaveta do dinheiro, colocada embaixo do balcão.
Certificou-se que realmente esta era a intenção do homem, inesperadamente saltou na direção na qual o mesmo deveria estar e o agarrou violentamente. Tio Ladário era um homem de compleição robusta e dono de uma força tísica de fazer inveja a muitas pessoas fortes.
Conseguiu agarrar os desconhecido e, lutando como mesmo, derrubou-o do outro lado do balcão.
Por felicidade pôde mobilizá-lo, prendendo-lhe os dois pulsos, montando a cavalo sobre sua barriga.
Ao fazer isto, sentiu, como as pernas, o homem estava armando de faca e revólver.
Chamou por socorro e só atendeu seu filho Renato, de seis ou sete anos de idade.
- Meu filho, monta a cavalo e vai a Restinga buscar o coronel Avelino (o subdelegado de polícia) e diz para que ele venha ligeiro porque eu fiquei montado em um cafajeste que quis saquear a minha gaveta.
Renato montou a cavalo, em pêlo, e saiu em direção a Restinga a mais de légua de distancia, e tio Ladário ficou entregue a seu destino.
O homem ficava bem quietinho e, de vez em quando, dava uns arrancos, tentando se libertar e aí, talvez, ataca-lo.
Perto de duas horas depois ouviu-se o ronco do Ford do Bigode do Coronel Avelino, que vinha acompanhado de dois “maganhas”.
Bem, o que aconteceu depois, para o ladrão, foi algo para ele não esquecer jamais.
Depois de uma sova de “rabo de tatu” e de ter ficado amarrado a uma conhecida laranjeira do pátio da casa do coronel, passou diversos dias na “floresta”, como era conhecida a cadeia local porque tinha sido inaugurada por um tal de Florestan, e ainda de quebra teve que trabalhar, consertando estrada, como era de costume, por castigo, por mais de quinze dias.
CABRAL, Alceu. Causos e lorotas. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2003