Meu filho, Carlos Alberto, o Beto, é funcionário do Banco do Brasil. Trabalhou sete anos em Rio Pardo e lá convivendo com os mutuários da Carteira Agrícola, viu muitas e boas.
Certa tarde, o Beto foi procurado por um mutuário, seu amigo, com ar de preocupação estampado no rosto.
- "Seu" Cabral, me dê uma informação, me diga o que é que eu posso fazer?
- Diga lá! Vamos ver qua mal o aflige.
- Bah, seu Cabral. Tô num pipino desgraçado. O senhor se lembra de uns meis atrás eu cheguei aqui, falei pro senhor que eu tinha vindo avaliá um título prum cumpradre meu?
- Lembro, sim senhor, e eu até lhe disse que tivesse cuidado com esse negócio de dar aval para qualquer um.
- Pois é seu Cabral. Eu me lembro. Sabe de uma coisa? Avaliei a letra pra este meu cumpadre. E sabe lá o que ele fez? Tracou uma bala nos cornos e me deixou com a vela na mão. Que é que eu posso fazer agora?
- Ora, seu Fulano, é muito fácil. Faça uma letra, peça para outro avaliá e se mate também...
- Ah, não. Assim não seu Cabral, prefiro pagar a conta deste desgraçado, que Deus o tenha, a deixar meu couro pra refugo.
CABRAL, Alceu. Causos e lorotas. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2003.